GirandoPeloMundo

January 7, 2007

Poema Emprestado [Uncategorized] — girandopelomundo @ 7:01 pm

Ai, e assim: 2007 comca com palavras sem acento e sem cedilha. Nao eh preguica nao, eh porque meu computador do submundo (ou a usuaria do computador) nao tem essas coisas chiques - aqui as palavras sao secas, sem frufrus.

Mas enfim, nao eh para reclamar da secura das palavras, ou da falta de acento, que escrevi esse post. Escrevo agora para compartir um poema que li hoje pela manha. Voce sabe, quando a gente nao consegue expressar algumas coisas com as nossas palavras, podemos pedir emprestadas aquelas frases belas que alguem jah escreveu, ne? Para que tentar escrever coisa mais ou menos se alguem jah fez melhor, e "exatamente" como voce estava pensando? Mas vou parar de falar, e vou dar espaco ao Fernando Pessoa, ou, aqui, Alberto Caeiro, no livro "O guardador de Rebanhos":

XLVI

Deste modo ou daquele modo,

Conforme calha ou nao calha,

podendo as vezes dizer o que penso,

E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,

Vou escrevendo os meus versos sem querer,

Como se escrever nao fosse uma cousa feita de gestos,

Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse

Como dar-me o sol de fora.

 

Procuro dizer o que sinto

Sem pensar em que sinto.

Procuro encostar as palavras a ideia

E nao precisar dum corredor

Do pensamento para as palavras

 

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.

O meu pensamento so muito devagar atravessa o rio a nado

Porque lhe pesa o fato de que os homens o fizeram usar.

 

Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emocoes verdadeiras,

Desembrilhar-me e se eu, nao Alberto Caeiro,

Mas um animal humano que a Natureza produziu.

 

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,

Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.

E assim escrevo, ora bem, ora mal,

Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,

Caindo aqui, levantando-me acola,

Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

 

Ainda assim, sou alguem.

Sou o Descobridor da Natureza.

Sou o Argonauta das sensacoes verdadeiras.

Trago ao Universo um novo Universo

porque trago ao Universo ele-proprio.

 

Isto sinto e isto escrevo

Perfeitamente sabedor e sem que nao veja

Que sao cinco horas do amanhecer

E que o sol, que ainda nao mostrou a cabeca

Por cima do muro do horizonte,

Ainda assim ja se lhe veem as pontas dos dedos

Agarrando o cima do muro

Do horizonte de montes baixos.

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